Resposta curta
Quantas formas de discalculia existem?
A classificação mais conhecida dos tipos de discalculia vem do pesquisador eslovaco Ladislav Kosc, que em 1974 descreveu seis tipos: discalculia verbal, practognóstica, léxica, gráfica, ideognóstica e operacional. Essa lista é histórica. A pesquisa atual trata a discalculia do desenvolvimento como heterogênea: as pessoas diferem em quais habilidades de base estão fracas, como a noção central de quantidade, a memória de trabalho ou as habilidades visuoespaciais, e muitas apresentam uma mistura. Outra distinção é entre a discalculia do desenvolvimento, presente desde a infância, e a discalculia adquirida (acalculia), que surge após uma lesão cerebral.
- Kosc (1974) descreveu seis tipos de discalculia do desenvolvimento.
- Os seis tipos são verbal, practognóstica, léxica, gráfica, ideognóstica e operacional.
- A pesquisa atual descreve perfis cognitivos variados, e não tipos fixos (Kaufmann et al., 2013).
- A discalculia adquirida, ou acalculia, surge após uma lesão cerebral e é diferente da discalculia do desenvolvimento.
Pesquise os tipos de discalculia e você vai encontrar a mesma lista de seis nomes repetidas vezes: verbal, practognóstica, léxica, gráfica, ideognóstica e operacional. A lista é real e ainda útil para descrever o que uma pessoa acha difícil, mas tem mais de cinquenta anos, e a pesquisa avançou desde então. Este guia explica os seis tipos clássicos, como cada um aparece e como os pesquisadores descrevem hoje as diferentes faces da discalculia.
Existem mesmo tipos diferentes de discalculia?
Sim e não. A discalculia não é uma dificuldade uniforme: duas pessoas com o mesmo rótulo podem ter dificuldade com coisas bem diferentes. Uma pode não conseguir ver num relance qual de dois grupos é maior; outra lida bem com quantidades, mas não consegue guardar um número na cabeça por tempo suficiente para terminar uma conta; uma terceira lê algarismos com fluência, mas confunde os sinais das operações. Nesse sentido, há claramente formas diferentes de discalculia.
O que a pesquisa não sustenta é um conjunto organizado de tipos separados, cada um com sua causa, que a pessoa tem ou não tem. As dificuldades se sobrepõem, mudam com a idade e a escolarização, e a maioria das pessoas apresenta uma mistura. Por isso, vale ler qualquer lista de tipos como um mapa das áreas que podem ser afetadas, e não como um conjunto de caixas.
Os seis tipos de discalculia de Kosc (uma classificação histórica)
Em 1974, o pesquisador Ladislav Kosc publicou um estudo sobre a discalculia do desenvolvimento no Journal of Learning Disabilities. Ele a definiu como um transtorno estrutural das habilidades matemáticas e agrupou as dificuldades que observou em seis tipos, de acordo com a parte da atividade matemática afetada. Os nomes vêm desse artigo e ainda são muito citados, especialmente em fontes em espanhol, em português e do Leste Europeu.
| Tipo (Kosc 1974) | O que é afetado | Exemplo |
|---|---|---|
| Discalculia verbal | Nomear e entender números, quantidades e termos matemáticos na linguagem falada | Consegue ler e escrever 7, mas não consegue dizer "sete" ao ver sete objetos, ou não entende "tire três" |
| Discalculia practognóstica | Manipular objetos reais ou desenhados de forma matemática: contar, comparar, ordenar e estimar | Não consegue enfileirar palitos do mais curto ao mais longo nem dizer qual pilha de blocos tem mais |
| Discalculia léxica | Ler símbolos matemáticos: algarismos, números de vários algarismos e sinais | Lê 71 como 17, ou lê × como + |
| Discalculia gráfica | Escrever símbolos matemáticos | Escreve "cento e quatro" como 1004, ou não consegue copiar algarismos em colunas |
| Discalculia ideognóstica | Entender ideias e relações matemáticas, e calcular de cabeça | Sabe de cor que 7 + 5 = 12, mas não percebe que 12 − 5 tem de ser 7 |
| Discalculia operacional | Realizar corretamente as operações aritméticas | Soma quando a tarefa pede multiplicação, ou troca de operação no meio da conta |
Discalculia verbal, léxica e gráfica: a linguagem dos números
Três dos seis tipos dizem respeito a como os números são expressos: falados (verbal), lidos (léxica) e escritos (gráfica). Eles se sobrepõem às habilidades de leitura e escrita, e esse é um dos motivos pelos quais a discalculia aparece tantas vezes junto com a dislexia — veja discalculia e dislexia para entender como as duas se diferenciam.
Discalculia practognóstica, ideognóstica e operacional: quantidade e cálculo
Os outros três tratam do que os números significam e do que se faz com eles: trabalhar diretamente com quantidades (practognóstica), compreender as relações entre números (ideognóstica) e realizar operações (operacional). As dificuldades practognósticas são as que mais se aproximam do que a pesquisa atual chama de fraqueza central no senso numérico.
Como a pesquisa descreve os tipos de discalculia hoje
Desde os anos 1970, a pesquisa sobre a discalculia do desenvolvimento deixou de classificar as pessoas em tipos e passou a perguntar quais habilidades cognitivas de base estão fracas. Um artigo de consenso que analisou a discalculia a partir de uma perspectiva do desenvolvimento e das diferenças individuais defendeu que ela é uma condição heterogênea: o padrão de pontos fortes e fracos varia entre as pessoas e muda ao longo do desenvolvimento. Revisões em pediatria descrevem o mesmo quadro.
Uma metanálise do perfil cognitivo das dificuldades em matemática, baseada em critérios clínicos, reuniu muitos estudos para ver quais habilidades são mais fracas em crianças com dificuldades em matemática. Ela encontrou dificuldades em várias áreas, e não em uma só — o processamento numérico básico, mas também a memória e outras habilidades de apoio —, o que mais uma vez contraria a ideia de um tipo único e uniforme.
Os perfis também mudam com a idade. Numa criança pequena, a dificuldade pode aparecer principalmente ao comparar pequenos grupos ou aprender a sequência da contagem. Alguns anos depois, a mesma criança pode ter alcançado os colegas na contagem, mas continuar lenta com fatos numéricos, valor posicional e contas escritas. Na vida adulta, a mesma fraqueza de base tende a aparecer com dinheiro, horas, estimativas e memorização de números. Esse é mais um motivo pelo qual um tipo fixo atribuído uma vez na infância diz menos do que uma observação regular de quais habilidades são, no momento, o elo mais fraco.
Perfis de discalculia que os pesquisadores costumam descrever
- Um perfil central de senso numérico: dificuldade para representar e comparar quantidades, ver pequenas quantidades num relance e ligar algarismos a quantidades.
- Um perfil de memória: o senso numérico é adequado, mas os fatos numéricos não se fixam e a memória de trabalho se esgota em contas de várias etapas.
- Um perfil visuoespacial: dificuldade com valor posicional, colunas, reta numérica, relógios e geometria.
- Um perfil misto: vários dos anteriores juntos, muitas vezes com dificuldades de leitura ou de atenção (veja discalculia: exemplos).
Esses perfis também são descrições, e não subtipos oficiais. O valor deles é prático: saber qual habilidade é a mais fraca mostra por onde a prática deve começar. O nosso teste de discalculia grátis foi construído em torno dessa ideia, com um jogo curto para cada habilidade central.
Tipos de discalculia do desenvolvimento e adquirida
A distinção mais importante entre as formas de discalculia não está entre os seis tipos de Kosc, e sim entre duas origens diferentes.
- A discalculia do desenvolvimento está presente desde a infância. As habilidades numéricas se desenvolvem de forma diferente desde o início, e a dificuldade geralmente persiste na vida adulta. É o que as pessoas normalmente querem dizer com discalculia, e é o tema das nossas páginas sobre sintomas e discalculia em adultos.
- A discalculia adquirida, geralmente chamada de acalculia, aparece depois que as habilidades numéricas já tinham se desenvolvido normalmente, em consequência de lesão cerebral, AVC ou doença neurológica. Alguém que calculava com facilidade pode, de repente, perder a capacidade de ler números ou fazer contas simples.
As duas podem parecer semelhantes num teste, mas a história é diferente, assim como as perguntas que o profissional faz. A acalculia adquirida é avaliada num contexto neurológico; a discalculia do desenvolvimento geralmente é investigada pela escola e por profissionais da área educacional, como psicopedagogos e neuropsicólogos.
Tipos de discalculia primária e secundária
Uma segunda distinção útil é entre dificuldades em matemática primárias e secundárias. Na discalculia primária, a dificuldade com números é o problema principal e não é explicada por outra coisa. Nas dificuldades secundárias em matemática, as habilidades numéricas fracas são consequência de outra causa.
| Discalculia primária | Dificuldades secundárias em matemática | |
|---|---|---|
| Causa principal | Uma dificuldade específica com o próprio processamento numérico | Outro fator: falta de escolarização, dificuldades de atenção, problemas de linguagem, ansiedade, dificuldades sensoriais ou de aprendizagem em geral |
| Padrão | Fraqueza persistente nas habilidades numéricas básicas apesar de um ensino adequado | A matemática é prejudicada junto com o outro fator, ou por causa dele |
| O que ajuda primeiro | Prática direcionada das habilidades numéricas básicas | Cuidar do fator de base, junto com o apoio em matemática |
Os casos reais muitas vezes são mistos. Uma criança com dificuldades de atenção também pode ter uma fraqueza primária no senso numérico (dificuldades de atenção e com números costumam ocorrer juntas), e a ansiedade pode se somar a qualquer uma delas. Separar esses fios faz parte de uma avaliação formal, explicada em como é feito o diagnóstico da discalculia.
Tipos de discalculia na CID e no DSM
Os sistemas oficiais de classificação não dividem a discalculia em tipos. A CID-10 lista um transtorno específico da habilidade em aritmética; a CID-11 lista um transtorno do desenvolvimento da aprendizagem com prejuízo na matemática; o DSM-5 usa um transtorno específico da aprendizagem com prejuízo na matemática e pede que o avaliador indique quais áreas estão afetadas e qual é a gravidade da dificuldade. Para os códigos e o que eles abrangem, veja o nosso guia sobre o CID da discalculia.
Por que o tipo de discalculia importa para o apoio
Rótulos como "discalculia gráfica" importam menos do que a pergunta por trás deles: quais habilidades estão fracas e quais estão fortes? A resposta define o que praticar e em que ordem.
Se a própria noção de quantidade está fraca, comece vendo e comparando pequenas quantidades, e depois ligue os algarismos a essas quantidades.
Se a reta numérica está fraca, pratique posicionar e estimar números numa reta antes de passar para o valor posicional e os números maiores.
Se a memória para fatos está fraca, mantenha a prática curta e frequente, e use estratégias como os dobros e completar a dezena em vez de decoreba.
Se o problema é ler ou escrever números, trabalhe a ligação entre as formas falada, escrita e de quantidade do mesmo número.
Há ideias para cada um desses casos no nosso guia de atividades para discalculia. O nosso programa pago organiza dez tipos de exercício em 196 níveis para que cada área possa ser praticada diariamente, começando pela habilidade que mais precisa.
Mitos comuns sobre os tipos de discalculia
- "Todo mundo com discalculia tem um dos seis tipos." Os seis tipos descrevem áreas de dificuldade; a maioria das pessoas apresenta uma mistura.
- "O tipo revela a causa." Os tipos de Kosc descrevem o que é afetado, e não o porquê.
- "Acalculia é só discalculia em adultos." A acalculia é adquirida após uma lesão cerebral; adultos com discalculia do desenvolvimento a têm desde a infância.
- "Se a matemática está fraca por outro motivo, não é real." Dificuldades secundárias em matemática também precisam de apoio, mesmo que o primeiro passo seja cuidar da causa de base.











